{"id":551,"date":"2016-10-07T14:32:59","date_gmt":"2016-10-07T17:32:59","guid":{"rendered":"http:\/\/zonasombria.com.br\/?p=551"},"modified":"2016-11-10T05:13:10","modified_gmt":"2016-11-10T07:13:10","slug":"ilha-dr-moreau-classico-de-hg-wells","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zonasombria.com.br\/index.php\/2016\/10\/07\/ilha-dr-moreau-classico-de-hg-wells\/","title":{"rendered":"A Ilha do Dr. Moreau: Um cl\u00e1ssico atemporal de H.G. Wells"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-562\" src=\"http:\/\/zonasombria.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/IlhaDrMoreauColagem-1.jpg\" alt=\"Ilha do Dr. Moreau\" width=\"413\" height=\"254\" srcset=\"https:\/\/zonasombria.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/IlhaDrMoreauColagem-1.jpg 1074w, https:\/\/zonasombria.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/IlhaDrMoreauColagem-1-300x184.jpg 300w, https:\/\/zonasombria.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/IlhaDrMoreauColagem-1-768x471.jpg 768w, https:\/\/zonasombria.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/IlhaDrMoreauColagem-1-1024x628.jpg 1024w, https:\/\/zonasombria.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/IlhaDrMoreauColagem-1-820x503.jpg 820w\" sizes=\"auto, (max-width: 413px) 100vw, 413px\" \/><\/p>\n<p><strong>H.G. Wells<\/strong> (1866-1946) \u00e9 considerado um homem a frente do seu tempo, pioneiro da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com obras como <em><strong>Guerra dos Mundos<\/strong><\/em> (1898) e\u00a0<strong><em>O Homem Invis\u00edvel<\/em><\/strong> (1897). Escreveu o romance &#8220;<strong><em>A ilha do dr. Moreau<\/em><\/strong>&#8221; &#8211; publicado em 1986 &#8211; considerado um dos grandes cl\u00e1ssicos da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e horror do s\u00e9culo XIX n\u00e3o apenas por conta de seu ponto de vista liter\u00e1rio<span style=\"color: #ff0000;\">,<\/span>\u00a0cuja trama \u00e9 bem solidificada, despertando o interesse do leitor logo de cara e deixando-o absorto em sua leitura, mas, principalmente, por sua plasticidade filos\u00f3fica, por questionamentos que transcendem a pr\u00f3pria est\u00e9tica textual, podendo servir como\u00a0uma <strong>cr\u00edtica \u00e0 religi\u00e3o<\/strong>, <strong>\u00e0 organiza\u00e7\u00e3o social<\/strong>, como uma par\u00e1bola sobre a <strong>crueldade da ci\u00eancia<\/strong>.<\/p>\n<p>Uma obra sujeita as mais cab\u00edveis interpreta\u00e7\u00f5es, mas que trazem a rela\u00e7\u00e3o <strong>humanidade x instinto primitivo<\/strong>\u00a0como dilema central da trama.<\/p>\n<h2><span style=\"color: #ff0000;\">O Enredo<\/span><\/h2>\n<p>A est\u00f3ria do livro \u00e9 contada em forma de relato\/di\u00e1rio por\u00a0<strong>Edward Prendick,\u00a0<\/strong>um brit\u00e2nico com uma &#8220;inexplic\u00e1vel voca\u00e7\u00e3o&#8221; para ser n\u00e1ufrago, narrando suas experi\u00eancias ins\u00f3litas vividas em meio a natureza de uma ilha desconhecida.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s passado alguns infort\u00fanios, <strong>Prendick<\/strong> foi resgatado \u00e0 deriva no meio do oceano, a mando de um capit\u00e3o nada amig\u00e1vel, tendo a felicidade de conhecer <strong>Montgomery<\/strong>, um m\u00e9dico acompanhado de <strong>Mling,\u00a0<\/strong>seu estranho assistente de tra\u00e7os simiescos, levando uma inc\u00f4moda carga de animais para uma ilha in\u00f3spita, perdida no meio do pac\u00edfico. Chegado a ilha, motivado pela hostilidade do capit\u00e3o e pela recusa de Montgomery em n\u00e3o permitir sua companhia, Pendrick se v\u00ea novamente \u00e0 deriva, entregue ao abandono em alto mar, por\u00e9m, resgatado por Montgmery, que decide violar as regras para salv\u00e1-lo, conduzindo-o ao universo de mist\u00e9rios e incertezas presentes numa ilha habitada por nativos de aspectos f\u00edsicos pouco comuns.<\/p>\n<p>L\u00e1, Pendrick conhece\u00a0<strong>Dr. Moreau <\/strong>no qual Montgomery \u00e9 seu assistente &#8211;\u00a0um conceituad\u00edssimo cientista, famoso nos c\u00edrculos cient\u00edficos &#8211; por\u00e9m, censurado por conta de seu padr\u00e3o a\u00e9tico com o qual conduz seus trabalhos, indo refugiar-se na ilha. \u00a0Como todo cientista radical em suas ideias, <strong>Moreau<\/strong> \u00e9 um sujeito pouco soci\u00e1vel e que tem sua vida confinada a uma <strong>sala secreta<\/strong>, onde produz suas experi\u00eancias cient\u00edficas com a estrita ordem de total sigilo.<\/p>\n<p>Certo dia, ao ouvir angustiosos rugidos de profundo horror e dor vindos do interior sala, n\u00e3o demora muito para Pendrick perceber que <strong>seus experimentos envolvem animais<\/strong>, uma realidade atroz que o instiga a investigar a ci\u00eancia e a motiva\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s daquele impiedoso sofrimento, descobrindo uma perversa teoria de vivissec\u00e7\u00e3o e procedimentos nada ortodoxos utilizados pelo doutor. <strong>\u00c9 aqui onde o terror, a repulsa e a indigna\u00e7\u00e3o penetrar\u00e3o na mente do leitor.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-624\" src=\"http:\/\/zonasombria.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/a_ilha_do_dr_moreau_capa.jpg\" alt=\"a_ilha_do_dr_moreau_capa\" width=\"791\" height=\"411\" srcset=\"https:\/\/zonasombria.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/a_ilha_do_dr_moreau_capa.jpg 770w, https:\/\/zonasombria.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/a_ilha_do_dr_moreau_capa-300x156.jpg 300w, https:\/\/zonasombria.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/a_ilha_do_dr_moreau_capa-768x399.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 791px) 100vw, 791px\" \/><\/strong><\/p>\n<p>A ilha do Dr. Moreau apresenta uma narrativa fluida, com caracter\u00edsticas h\u00edbridas, uma mistura de horror e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com pitadas de suspense e aventura. O livro n\u00e3o apresenta muitos personagens, o leitor perceber\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o maior em dar maiores explica\u00e7\u00f5es no desenvolvimento da est\u00f3ria de qualquer um deles por se tratar de um relato das experi\u00eancias vividas por Pendrick. Por\u00e9m, o enfoque do livro est\u00e1 al\u00e9m da maravilhosa est\u00f3ria que ele deseja nos contar, a obra ressoa a criticidade de seu autor inteligentemente dilu\u00edda atrav\u00e9s de seus personagens e dilemas, fazendo tudo aquilo parecer uma esp\u00e9cie de <strong>alegoria que retrata a nossa civiliza\u00e7\u00e3o e que toca na matriz do ser humano, em nossa ess\u00eancia primitiva e questiona nosso senso racional \u00e0 luz de uma linha t\u00eanue que separa a raz\u00e3o do instinto animal.<\/strong><\/p>\n<p>A figura do Dr. Moreau pode muito bem ser entendida como uma met\u00e1fora ao cientista louco, apresentando semelhan\u00e7as com o <strong>Dr. Frankstein<\/strong> de <strong>Mary Shelley,<\/strong> mas que ao inv\u00e9s de violar cad\u00e1veres para dar vida a sua criatura, Moreau opera sua atrocidades em criaturas ainda vivas, indiferente ao sofrimento causado. Tudo por amor \u00e0 ci\u00eancia, ao pr\u00f3prio ego que traz para si, atributos de uma divindade com o poder de remodelar a vida, criando uma nova atrav\u00e9s de uma transmuta\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 f\u00edsica, como tamb\u00e9m mental e at\u00e9 mesmo comportamental. <strong>Experi\u00eancias que fazem da vida, mero instrumento de manipula\u00e7\u00e3o e controle, como barro a ser modelado segundo a imagem e semelhan\u00e7a de um pai criador<\/strong>. Uma pretensa par\u00f3dia negativa de Wells \u00e0\u00a0obra do Criador da ra\u00e7a humana e suas rela\u00e7\u00f5es com as Suas criaturas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2 style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #ff0000;\">A filosofia\u00a0de Wells\u00a0por\u00a0tr\u00e1s\u00a0dos\u00a0discursos\u00a0 do\u00a0 Dr. Moreau \u00a0(cont\u00e9m\u00a0spoilers !)<\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: left;\">Wells n\u00e3o d\u00e1 a Moreau nenhum motivo para seus experimentos, para al\u00e9m da satisfa\u00e7\u00e3o de um tipo perverso de vaidade, de um deleite est\u00e9tico. \u00a0Seu fim \u00e9 aprimorar sua inventividade, evoluir a sua cria\u00e7\u00e3o, instituindo normas de civiliza\u00e7\u00e3o junto a uma indom\u00e1vel natureza primitiva, selvagem. Motivo pelo qual o\u00a0escritor Br\u00e1ulio Tavares aborda a\u00a0est\u00f3ria como sendo uma<strong> forma pejorativa de como o colonialismo europeu procurava<\/strong> <strong>\u201ccivilizar\u201d os primitivos,<\/strong> j\u00e1 que na \u00e9poca em que o livro foi escrito, estava muito em voga o\u00a0<strong>desbravamento de territ\u00f3rios desconhecidos<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Al\u00e9m disso, no discurso de Moreau, numa tentativa de justificar seus experimentos a Pendrik, observamos outras alegorias que manifestam a subjetividade de Wells.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em uma das justificativas usadas por Moreau, podemos perceber, por exemplo uma clara alegoria \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o :<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0&#8220;<em><strong>Cada vez que mergulho uma criatura viva nesse banho ardente de dor, penso: desta vez, queimarei todo o animal at\u00e9 extingui-lo, desta vez produzirei uma criatura racional de acordo com meu desejo. Afinal de contas, o que s\u00e3o dez anos? O homem est\u00e1 sendo aperfei\u00e7oado h\u00e1 cem mil.&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">Em outro trecho Wells utiliza do discurso de Moreau para tratar de \u00e9tica, sobre como a moralidade condiciona nossa conduta :<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>&#8220;O hipnotismo \u00e9 uma ci\u00eancia que vem se desenvolvendo e nos promete a possibilidade de substituir os antigos instintos por novas sugest\u00f5es, enxertadas sobre as ideias fixas que herdamos, ou mesmo substituindo-as. Na verdade, uma grande parte do que chamamos \u201ceduca\u00e7\u00e3o moral\u201d n\u00e3o passa de uma modifica\u00e7\u00e3o artificial desse tipo, uma pervers\u00e3o do instinto; a agressividade \u00e9 induzida a virar coragem e auto sacrif\u00edcio, a sexualidade reprimida se transforma em emo\u00e7\u00e3o religiosa.&#8221;<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>No pensamento de Moreau, Wells questiona a nossa moral aprendida, como sendo algo condicionado, uma indu\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica que adultera a nossa ess\u00eancia primitiva e encaixota a nossa natureza numa \u00e9tica idealizada, sugestionada. Princ\u00edpios que substituem pr\u00e1ticas mas n\u00e3o modificam verdadeiramente o &#8220;eu primitivo&#8221; de cada ser humano. Wells questiona: <em><strong>Somos verdadeiramente animais racionais ou animais psicologicamente adestrados ?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Cabe mencionar outro aspecto importante do enredo, um paralelo que discute o papel da religi\u00e3o na sociedade metaforicamente representada pela lei de Moreau. A\u00a0\u201cLei\u201d \u00e9 composta por normas que, dada a origem de cada um de seus monstros no mundo animal, lhes \u00e9 doloroso ou, mesmo, imposs\u00edvel obedecer \u2013 n\u00e3o andar de quatro e n\u00e3o comer carne, por exemplo. Quando algum pobre-diabo inevitavelmente quebra a lei, \u00e9 punido com a repulsa do grupo, seguida de torturas inomin\u00e1veis.<\/p>\n<blockquote><p><em><strong>&#8220;(&#8230;) ideias fixas implantadas por Moreau em suas mentes, que estabeleciam limites intranspon\u00edveis para sua imagina\u00e7\u00e3o. Eles tinham sido hipnotizados, tinham aprendido que certas coisas eram imposs\u00edveis, e certas outras coisas n\u00e3o deviam ser praticadas, e tais proibi\u00e7\u00f5es estavam impregnada.\u201d<\/strong><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A lei de Moreau era mantida como forte controle psicol\u00f3gico, um misto de \u00a0lavagem cerebral e hipnotismo no qual submetia a todos, independente de cada esp\u00e9cie. Fazendo com que as criaturas travassem uma <strong>obstinada guerra entre os mandamentos impostos contra suas necessidades naturais<\/strong>, quase sempre perdida, causando uma regress\u00e3o ao instinto selvagem. \u00c9, sem d\u00favidas, uma clara alus\u00e3o do ponto de vista de Wells \u00e0 religi\u00e3o. Cada criatura representa as peculiaridades de cada ser humano, de sua impuls\u00e3o natural para as suas eventuais necessidades em desarranjo com o padr\u00e3o imposto pela religi\u00e3o.<strong> Um padr\u00e3o que homogeniza o homem em detrimento de suas individualidades<\/strong>.<\/p>\n<h2><span style=\"color: #ff0000;\">Por fim&#8230;<\/span><\/h2>\n<p>Por fim, o pesamento de Wells acerca da humanidade se completa com sua obra &#8211; A ilha do dr. Moreau &#8211; uma obra a frente do seu tempo, cujo horror n\u00e3o se limita aos tra\u00e7os e perturba\u00e7\u00f5es de seus monstros ou \u00e0 loucura de um cientista obcecado pelos seus experimentos ou na atmosfera l\u00fagubre que se contrasta com as belezas naturais de uma ilha desconhecida, o terror foge \u00e0s p\u00e1ginas dessa magn\u00edfica obra e deixa-nos a refletir atemorizados com a verdade que ela nos entrega &#8211; <strong>de que o homem tem a tend\u00eancia a ser um animal irracional, de que somos predadores de n\u00f3s mesmos, de que nossa monstruosidade \u00e9 inata e precisamos das regras sociais, da moralidade, da observ\u00e2ncia de preceitos \u00e9ticos, da religi\u00e3o para atenuar a nossa brutal realidade, um padr\u00e3o que ajusta a nossa consci\u00eancia, por\u00e9m, n\u00e3o nos toca a ess\u00eancia. \u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&#8220;<em>Vejo rostos que s\u00e3o perspicazes e cheios de energia; outros que s\u00e3o ap\u00e1ticos e amea\u00e7adores; outros desequilibrados, insinceros; nenhum deles exibe a calma autoridade de uma alma impregnada de raz\u00e3o. Sinto como se o animal estivesse querendo brotar dentro deles; e que a qualquer momento a regress\u00e3o que testemunhei nos ilh\u00e9us se reproduzir\u00e1 aqui, numa escala muit\u00edssimo maior.&#8221;<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H.G. Wells (1866-1946) \u00e9 considerado um homem a frente do seu tempo, pioneiro da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com obras como Guerra dos Mundos (1898) e\u00a0O Homem Invis\u00edvel (1897). Escreveu o romance &#8220;A ilha do dr. 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